28.02.20

Entrevista exclusiva do novo chefe da Embrapa Florestas, Erich Schaitza, para a ABAF

1- Quais serão as principais diretrizes em sua gestão?

R: Em grande parte, minha gestão é uma continuidade da do Edson Tadeu Iede. Vamos buscar nos integrar mais e mais aos setores produtivos brasileiros. Talvez a grande diretriz atual da Embrapa como um todo e, portanto, nossa na Embrapa Florestas, é a de trabalharmos para gerar produtos tangíveis para a sociedade, que gerem desenvolvimento e ganhos econômicos para a população, em projetos .

2 – Como vê a criação do Plano Nacional de Florestas e como a Embrapa
Florestas vai ajudar em sua execução?

R: O Plano Nacional de Florestas Plantadas é uma construção coletiva. Associações como a ABAF apresentaram suas visões e um grupo de trabalho as consolidou em um Plano. Participei de sua construção e o processo foi muito rico.  Ele elencou aproximadamente 70 pontos que devem ser equacionados pelo setor florestal para acelerar seu desenvolvimento, ora por empresas privadas, ora por legisladores e em alguns casos por empresas de ciência e tecnologia, como é o caso da Embrapa.  Na nossa leitura do Plano, podemos contribuir com trabalhos de organização da informação produtiva e territorial, com melhorias em sistemas de produção, na obtenção de materiais genéticos superiores e no desenvolvimento de novos produtos da floresta. Queremos trabalhar em projetos cooperativos com empresas privadas, voltados a geração de inovações. Temos um corpo técnico de 200 pessoas, muito bem preparadas e experientes, interessadas em atacar desafios tecnológicos. Acreditamos que se conseguirmos integrar empresas e instituições de pesquisa em plataformas cooperativas, podemos ser grandes participantes da economia global em várias áreas.  Já somos importantes globalmente com um setor florestal pujante, especialmente nas áreas de celulose, mas podemos crescer ainda mais nesses setor e em outros como madeira para construção e bioenergia. 

3 – Como vê o trabalho da Câmara Setorial de Florestas Plantadas e como a
Embrapa Florestas participa?

R: Ela é um espaço interessante. Pessoas com diferentes interesses e ideias sentam juntas para promover desenvolvimento econômico e social e com uma preocupação ambiental grande. A Embrapa Florestas tem se esforçado para participar das atividades da Câmara e usa as suas recomendações como diretrizes de trabalho. Somos ouvintes e temos a oportunidade de ouvir as demandas setoriais para nos debruçarmos sobre elas. O Plano fala na promoção de plataformas cooperativas de pesquisa, queremos trabalhar para estabelecê-las, fala em pesquisas com madeira para construção civil e bioenergia, vamos direcionar pesquisas para essas áreas. Estamos procurando estabelecer parcerias com outras instituições de pesquisa e desenvolvimento para trabalharmos junto. Vale frisar que com a vinda do Serviço Florestal Brasileiro para o Ministério da Agricultura, temos a obrigação de procurar o Laboratório de Produtos Florestais e trabalhar em sintonia com eles. Da mesma forma, à medida que o Serviço Florestal Brasileiro comece a implementar projetos de desenvolvimento florestal, queremos ser seus parceiros tecnológicos.

4 – E com relação às Estaduais Florestais?

R: Elas são parceiras naturais de nosso trabalho. Temos uma longa história de parcerias com as quatro associações do sul do Brasil Ageflor, a ACR, APRE e ASBR. Hoje temos plataformas cooperativas para trabalhos em controle de pragas e melhoramento genético de pragas. Nosso desejo é expandir essa atuação e estar junto com as demais associações brasileiras, como a ABAF, Reflore, AMIF e Areflorestas. Estabelecer um programa cooperativo em pesquisa com uma associação nos garante que o resultado de nosso trabalho é imediatamente visto por um grande número de empresas. Isso potencializa a rápida adoção de tecnologias e a disseminação de conhecimento dentro do setor produtivo.

5 – Como a Embrapa Florestas pretende estimular ainda mais o sistema ILPF?

R: Segundo a Embrapa Territorial, 21,2% da área do país é ocupada por pastagens, com uma diversidade enorme de sistemas de produção e de qualidade ambiental. O ILPF é um esforço coletivo de várias unidades de pesquisa da Embrapa e de parceiros no desenvolvimento de tecnologias mais sustentáveis para a pecuária. Dentro do ILPF há diferentes sistemas preconizados, alguns incluem gado e agricultura desenvolvidos na mesma área e de forma sinérgica, outros gado agricultura e florestas e outros somente gado e floresta. Na Embrapa, todos os centros que trabalham com gado, pastagens, grãos e florestas participam do esforço de pesquisa. A Embrapa Florestas contribui com conhecimento florestal para os sistemas que incluem árvores. Participamos do desenvolvimento de sistemas de produção nos quais as árvores geram dinheiro para o produtor, melhoram condições ambientais para o gado e neutralizam o carbono emitido pelo gado, de forma que se tem sistemas de produção com carbono neutro. Além de trabalhar no desenvolvimento de pesquisas, há um esforço muito grande de se estabelecer uma rede demonstrativa, referencial, desenvolvida por parceiros e que mostra a todos os produtores brasileiros que há tecnologias rentáveis e sustentáveis que podem melhorar suas propriedades. Geramos dados de produção, análises econômicas, fazemos seminários, cursos e participamos de diálogos com produtores mostrando a importância e o potencial do ILPF.  Vale frisar, esse é um esforço coletivo de uma grande rede de parceiros da Embrapa e fora da Embrapa.

6 – Quais são as pesquisas mais importantes realizadas no momento ou que
serão incentivadas em sua gestão?

R: Isso é difícil de dizer. Temos uma programação extensa de pesquisa e é muito difícil dizer o que é mais ou menos importante. No entanto, acho que podemos destacar algumas linhas importantes, como as pesquisas ligadas a mudanças climáticas, todo o trabalho de sanidade florestal, incluindo o controle integrado de pragas e doenças, a busca por uma silvicultura produtiva e rentável com várias espécies, os sistemas agroflorestais, incluindo o ILPF, e a busca pelo desenvolvimento de novos produtos a partir de madeira, folhas e frutos, como por exemplo películas de nanocelulose, químicos derivados de lignina ou novos alimentos funcionais a partir de produtos da floresta, como uma erva-mate com alto teor de cafeína. Hoje mesmo conversávamos sobre o potencial de conversão de resíduos de serrarias em produtos de maior valor agregado, como combustíveis, adesivos ou mesmo para geração de energia.

7 – Tendo em vista que a Bahia é um dos maiores produtores de madeira do
país, como estão os planos de atuação da Embrapa Florestas no estado?

R: Nossa atuação pode acontecer muito vinculada à ABAF, no apoio e formação de plataformas cooperativas para a pesquisa florestal. Nós temos um projeto muito interessante no oeste paranaense, chamado Bioeste Florestas, que poderia ser estendido para a Bahia. Testamos vários materiais comerciais e nossos em diferentes unidades de paisagem, mostrando para produtores o que podem plantar em cada situação. Aproveitamos esse projeto ainda para mostrar outras tecnologias associadas ao manejo florestal, como um simulador de crescimento, ou uma maior compreensão sobre solos, adubação e manejo de água.

8 – A ABAF aposta no uso múltiplo da floresta plantada. Como a Embrapa
Florestas trabalha esta questão da diversificação?

R: Nós acreditamos que a diversificação industrial é boa para o silvicultor e que ele pode manejar a floresta para atender diferentes clientes, não fincando restrito à produção de madeira exclusivamente para uma finalidade. Por exemplo, regiões tradicionalmente produtoras de lenha para energia podem melhorar seu manejo e produzir também toras para processamento mecânico e com isso servir de base a toda uma indústria de construção civil e de mobiliário. Não é fácil sincronizar crescimento industrial com manejo florestal, mas há bons exemplos de sucesso. Nós gostaríamos muito de discutir com a ABAF, em parceria com a Embrapa Agroenergia, o desenvolvimento de um sistema de produção de  lenha, carvão, madeira sólida para serraria, uso de resíduos para produção de eletricidade, frio e calor, em trigeração, e ainda tentar explorar algumas possibilidades interessantes no desenvolvimento de químicos e materiais a partir de resíduos do processo industrial. A Bahia é a terra do Polo de Camaçari, de grandes empresas de celulose, achamos que é um espaço fantástico para o desenvolvimento de um trabalho como esse.

9 – Tivemos, na Bahia em 2015, problemas com a lagarta parda que, por outro lado, nos trouxe a oportunidade de desenvolver o Programa Ambiente Florestal Sustentável. Como a Embrapa Florestas trabalha a questão das pragas florestais e como podemos trabalhar em parceria?

R: Nós sempre temos trabalhado em parceria com empresas. Como falei anteriormente, aqui no sul fizemos um grande consórcio para controle de pragas, o Funcema, hoje já com quase 30 anos, no qual nós pesquisamos soluções e junto com empresas florestais as aplicamos de forma muito dinâmica. O Funcema nasceu para que desenvolvêssemos o controle biológico da vespa-da-madeira, uma grande praga nas nossas florestas nas décadas de 80-90. Buscamos tecnologia com apoio de australianos e passamos a cultivar um inimigo natural da vespa e a aplicá-lo em uma área de mais de um milhão de hectares. Hoje, mantemos, e quando digo mantemos digo que as empresas mantém, com nossa participação, uma grande rede de monitoramento. O Funcema, com o tempo, expandiu seu foco de ação e passou a desenvolver soluções de controle para outras pragas, como o pulgão e a formiga. Aqui no sul, a formiga que nos aflige é a quenquéns (Acromyrmex spp) e com algumas empresas trabalhamos em métodos de manejo que nos permitem diminuir a aplicação de iscas. Um convite para as empresas baianas: que tal participarem conosco de um projeto de desenvolvimento de iscas em substituição às tradicionais iscas com sulfluramida. Nós participamos também em projetos cooperativos liderados por outras instituições, como grupos de pesquisa do IPEF. No meu ponto de vista, consórcios de centros de tecnologia e de empresas são a solução para o controle de pragas, não interessa quem participa. Nos consórcios há complementariedade de conhecimentos. No controle do percevejo bronzeado, por exemplo, a turma do IPEF coordenada pela UNESP tinha enorme conhecimento da biologia e da dinâmica da praga, mas tinha problemas na criação massal de um inimigo natural. Na Embrapa Florestas desenvolvemos um esquema de criação massal que complementou a ação do grupo e juntos estabelecemos uma rotina de distribuição de inimigos naturais para as áreas afetadas. Gradualmente o percevejo bronzeado vai perdendo sua importância como praga.

10 – Estamos vendo o mundo construir, cada vez mais, com madeira (inclusive prédios). Como está esse setor no Brasil e como a Embrapa Florestas pretende contribuir?

R: Temos pouca experiência em construção em si, mas estamos trabalhando com algumas empresas no melhoramento genético de pinus para produção de madeira serrada. Essa seria uma área interessante para trabalharmos com eucalipto também, conforme já citei na questão do uso múltiplo. Estamos abertos à cooperação. Vale lembrar que, atualmente, as parcerias envolvem compartilhamento de custos. 

11 – Como o setor de florestas plantadas pode se tornar cada vez mais sustentável?

R: Eu vejo que temos que pensar em algumas questões: 1. tem que dar dinheiro para todos, incluindo produtores e industriais; 2. florestas plantadas não podem entrar em áreas florestais nativas, devem procurar ocupar áreas de pecuária e agricultura; 3. o produtor florestal tem que inserir florestas em mosaicos da paisagem, somando-as a matas nativas com um olho em conservação da biodiversidade e outro na proteção de solos e águas; 4. temos que pensar no impacto da produção florestal e do transporte de madeira para todos e uma das poucas soluções para diminuir o transporte de toras é ter indústrias próximas das florestas, minimizar distâncias de transporte; e 5. usar o máximo da floresta, sem perdas, com máxima agregação de valor.

12 – Como a Embrapa Florestas vê a polêmica em torno do uso de defensivos agrícolas?

R: Florestas usam relativamente poucos defensivos, mas usam. São importantes no controle de algumas pragas e no controle de ervas. Nos últimos tempos, houve um grande aumento no número de defensivos disponibilizados no mercado, com uma agilização na sua liberação. Até pouco tempo atrás, um processo de liberação de uma nova molécula levava uma década, agora esse processo leva dois anos. Portanto, sim, temos mais defensivos disponíveis e vamos ter ainda mais. Normalmente, na grande maioria dos casos, novos produtos vêm substituir os antigos sempre com menos impactos ambientais. No entanto, acho que nossa busca deve ser sempre para desenvolver sistemas de manejo que minimizem o uso de defensivos e os integrem aos sistemas com o mínimo de impacto possível. Técnicas como cultivo mínimo, manejo de áreas naturais, operações em épocas apropriadas ou queimas sanitárias de galhadas (como no caso da acácia negra) devem ser usadas.