Na agenda climática, 2050 é agora

Por Walter Schalka*

Se, da noite para o dia, acabássemos com o desmatamento ilegal na Amazônia e conseguíssemos negociar o carbono evitado nesse processo, o país teria US$ 10 bilhões adicionais por ano para fomentar uma economia sustentável e de baixo carbono. É um recurso que, se corretamente investido, promoveria uma verdadeira revolução na melhoria da qualidade de vida e na geração de renda para as comunidades amazônicas.

É verdade que o desmatamento ilegal na Amazônia não será resolvido da noite para o dia, mas é importante termos clareza que a potencial geração de riquezas pelo mercado de carbono é real. Assim como também são reais os danos causados por eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes em diversas partes do mundo.

O relatório mais recente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) revela que parte dos impactos das atividades humanas sobre a temperatura global já são irreversíveis. É ainda mais provável que o aumento da temperatura média global alcance, antes do previsto, 1,5° C em relação aos níveis pré-industriais. Eventos como estiagens prolongadas e inundações tendem a se intensificar se não forem adotadas ações concretas. E isso deve ser feito reduzindo emissões de carbono a partir de já, de forma que esse desafio não fique para as próximas gerações.

Não fazem sentido compromissos com metas de emissões líquidas de carbono zero em 2050, conforme anunciado por empresas e governos, sem que eles venham acompanhados de metas ambiciosas para o curto e médio prazo. Não podemos mais aceitar que as promessas de cortes de emissão sejam anunciadas para que, no minuto seguinte, empresas e governos emitam mais do que antes.

Por isso, a COP26 é uma oportunidade para a regulamentação de um mercado regulado de carbono vinculado ao Acordo de Paris, no qual os países signatários se comprometeram com metas de redução de carbono. O modelo de Cap and Trade apresenta-se como uma alternativa viável para a reversão da curva de emissões de carbono para atingimento dos compromissos públicos – Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) – e para impulsionar a descarbonização da economia global, tanto em termos de volume quanto de prazo.

Nesse contexto, o Brasil apresenta vantagens na corrida para alcançar uma economia de emissões líquidas de carbono neutras, valendo-nos dos múltiplos recursos naturais. Se tomarmos as medidas corretas, o país pode tornar-se mais competitivo e, paralelamente, melhorar as condições de vida da população, mantendo-se alinhado às prioridades em torno das quais o mundo está se movimentando. Para isso, é preciso ter uma jornada orientada para construção de objetivos climáticos claros, sob risco de sermos excluídos da nova ordem climático-econômica que vem se consolidando no cenário global.

Na medida em que empresas e governos sejam impelidos a cumprir suas metas de emissões, as reduções excedentes de carbono se tornam um ativo negociável para os que não conseguirem atingir seus objetivos. O resultado será o estímulo ao investimento em descarbonização, uma vez que a intensidade de emissão de carbono passará a ser critério de competitividade empresarial.

É nesse aspecto que se destaca a nossa vocação natural como líder global em economia regenerativa, com desdobramentos significativos no desenvolvimento social. O estímulo à Bioeconomia não somente contribuiria para o clima, como também estimularia a geração de empregos e agregaria valor mais significativo à cadeia produtiva. Seria, portanto, um importante motor para o desenvolvimento sustentável do país, assim como deveria ser o investimento em educação universal e de qualidade para viabilizarmos uma nova economia mais justa e igualitária.

Cito como exemplo de desenvolvimento a partir da Bioeconomia a geração de energia a partir da biomassa, uma das opções de energia limpa que distingue o Brasil de muitos outros países. Ela já é uma realidade no setor de papel e celulose, no qual o plantio sustentável de árvores cria oportunidades em outros mercados, como o de desenvolvimento de fibras têxteis. Neste caso, a descarbonização atua na substituição de produtos de origem fóssil. Mas temos consciência que devemos ir além.

A última década foi marcada pela corrida da tecnologia da informação. A próxima é a da bioeconomia e da biotecnologia, na qual a combinação dos ricos biomas brasileiros associados à capacidade para gerar soluções tecnológicas proporcionam diferenciais competitivos inigualáveis e por isso precisamos ser protagonistas.

O Brasil tem condições de despontar como protagonista na geopolítica internacional por meio de uma agenda ambiental socialmente inclusiva, desde que se posicione no lado certo do debate. É uma janela de oportunidade única que o país não pode perder, sendo fundamental para a retomada da credibilidade brasileira no cenário ambiental. Por isso, deveria anunciar uma redução do desmatamento ilegal na Amazônia no curto prazo, que seria a base da nossa discussão.

Outro pilar das discussões na COP26 deve ser a construção de agendas social e ambiental em um modelo colaborativo. O desafio das mudanças climáticas é intersetorial, internacional e intergeracional, e apenas conseguiremos ser propositivos e ambiciosos o suficiente se a lógica de competitividade for substituída pela cooperação e parceria.

O engajamento do Brasil nessa nova realidade global de economia climática, por meio da retomada verde da economia e da participação ativa na Conferência de Glasgow é a forma de reafirmar nosso protagonismo internacional, plantando um legado ambiental, social e econômico mais equânime para as próximas gerações. Nessa trajetória, todos os atores que se propuserem a construir uma economia de baixo carbono terão ganhos significativos, além de apoiarem a construção da transição econômica necessária e única jornada possível. É com esse olhar que devemos chegar à COP26.

 

*Walter Schalka é presidente da Suzano.