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A essencialidade de um setor para as soluções climáticas

*Por Nathalia Granato

Em plena pandemia o Brasil testemunhou dois eventos extremos os quais não poderíamos imaginar: ciclone bomba e nuvens de gafanhotos.

As mudanças climáticas ganharam status de emergência e exigem transformações concretas, pois não há mais espaço para a economia linear, baseada em exploração, produção, consumo e descarte. Os recursos precisam ser usados de forma inteligente para minimizar a pressão sobre o capital natural. Dar escala à bioeconomia sustentável é essencial para descarbonizar a economia. E é aí que entra o setor de árvores cultivadas.

A árvore cultivada é um recurso renovável e uma recicladora nata de carbono, contribuindo para a bioeconomia circular. Ela absorve o gás carbônico do ar por meio da fotossíntese, reduzindo a concentração deste gás na atmosfera. O sequestro de carbono e o seu estoque nas florestas são fundamentais para minimizar os efeitos das mudanças climáticas.

Apesar da diferença entre sequestro e estoque de carbono, os quase 8 milhões de hectares de florestas plantadas do setor, que ocupam cerca de 1% do território brasileiro, estocam 1,7 bi tCO2 equivalente, montante semelhante às emissões do Brasil em um ano.

Os benefícios para o clima continuam, já que as árvores colhidas são transformadas em produtos, que seguem estocando este carbono. Estes produtos podem ser reciclados, reutilizados e até servir para compostagem. E são biodegradáveis, isto é ao se decompor, serão absorvidos novamente pela natureza.

Milhões de toneladas de carbono deixam de ser emitidas no uso de energia renovável; na produção de copos, canudos e embalagens de papel, etc. Se mais florestas forem plantadas para o desenvolvimento de produtos que substituam os de origem fóssil, especialmente os de uso único, o planeta terá mais condições de se regenerar.

Por isso o setor de árvores cultivadas é chave para atender a contribuição nacionalmente determinada do Brasil (NDC) no Acordo de Paris: reduzir 37% das emissões até 2025 e 43% até 2030. Não à toa, para cumpri-la, foi sinalizado que é preciso restaurar 12 milhões de hectares de floresta, ampliar o uso de energia renovável e bioenergia.

Para além do papel nas mudanças climáticas, em matéria de ESG (Ambiental, Social e Governança) o setor de árvores cultivadas é doutor.

No G, de Governança e Transparência, podemos citar dentre vários exemplos, o fato de ser líder global de governança e engajamento junto aos dois principais sistemas de certificação (FSC e PEFC), ferramenta exemplar de ESG adotada pelo setor há 25 anos. O setor também compartilha dados em nível global por meio do Relatório de Sustentabilidade do ICFPA, entidade internacional da indústria de base florestal, demonstrando seu compromisso com a transparência e com a produção sustentável, alinhada aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Para a letra E (ambiental) mais uma vez o setor é referência. Nenhum outro setor ou país conserva 0,7 hectare para cada 1 hectare destinado à fins comerciais. Em números absolutos, são 5,6 milhões de hectares de Áreas de Preservação Permanente (APPs), Reserva Legal (RL), Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) e Áreas de Alto Valor de Conservação. Estes territórios tem área superior à do Estado do Rio de Janeiro e contam um com potencial de estocar 2,5 tCO2 equivalente.

Para o S (social), há 15 anos o setor foi vanguardista ao criar o Diálogo Florestal, transformando conflitos em parceria, por meio da escuta, respeito e confiança; inspirando inclusive a criação da Coalizão Clima Florestas e Agricultura, outra plataforma que o setor se orgulha de ter ajudado a fundar. Sem contar os R$ 482 milhões investidos em projetos socioambientais para colaboradores, comunidades e parceiros somente em 2018.

A lista é longa e vai além da legislação, com implementação legítima de ESG para atender as demandas da sociedade e do seu propósito sustentável. Por isso o setor seguirá atuando em adaptação e mitigação das mudanças climáticas; investindo em pesquisa e inovação; compartilhando e inspirando modelos sustentáveis de produção; buscando um mercado de carbono no Brasil, atuando junto à ONU e suas subsidiárias e entregando o que o mundo e os consumidores precisam.

Florestas e Mudanças Climáticas são temas indissociáveis e as árvores estarão presentes nos modelos de produção mais inclusivos e sustentáveis para entregar as soluções climáticas necessárias.

*Nathalia Granato é Mestre em Ciências Florestais e Engenheira Florestal pela UFV, passou por empresas como Companhia do Vale do Araguaia, Plantar e Internacional Paper. Atualmente coordena a área de Sustentabilidade e Assuntos Florestais da Ibá.